Ricardo Alves

Arquivo de intervenções cívicas de Ricardo Alves.

Posts Tagged ‘União Europeia

«5 minutos Europa»

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Written by Ricardo Alves

20 de Maio de 2014 at 12:36

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Nova Europa, novas incógnitas

Parece que afinal as eleições ainda podem mudar alguma coisa na Europa dos bancos e dos mercados. Em particular, se forem num dos países centrais do império germano-francês ou se, como na Grécia, cortarem para menos de metade o voto pró-troika.
Morta, para já, está a política de Merkozy. Porque Hollande tentará que as eurobonds se tornem realidade ou, heresia, que o BCE empreste directamente aos estados. E porque Merkel terá de começar a falar de crescimento e emprego, sabendo que é o seu parceiro mais austeritário e neoliberal (o FDP) que tem agravado as derrotas estaduais da direita alemã.
Em boa verdade, ninguém sabe quanto é que Hollande fará Merkel recuar. Nem que governo sairá da Grécia. Nem o que se seguirá até ao Verão. Mas, numa Primavera eleitoral europeia que ainda não acabou e já elegeu o primeiro presidente socialista francês desde Miterrand e virou do avesso o sistema partidário grego, foram dados sinais poderosos de que os cidadãos querem outra saída para a crise. Dentro de dias haverá mais uma eleição estadual na Alemanha, hipotéticas legislativas gregas em semanas e, o que é crucial, as legislativas francesas.
Entretanto, os políticos portugueses parecem distraídos. Aceitam um papel de subalternidade à UE e à troika que não é destino, como nos querem convencer, mas escolha. Com essa apática certeza podemos contar. Infelizmente.


Publicado no i de 23 de Novembro de 2011.

Written by Ricardo Alves

9 de Maio de 2012 at 23:35

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França vista de Portugal


A primeira volta das presidencial francesa será já no domingo. Estranhamente, e apesar de o presidente francês ser de facto o vice-governador da União Europeia, a eleição parece interessar pouco à opinião publicada em Portugal.

Merkozy parece ferido de morte no dia em que escrevo. Dificilmente uma vitória de Hollande permitirá a Merkel manter o rumo actual do espaço político em que, sem referendos nem verdadeiro debate, estamos inseridos desde 1985. O próprio Sarkozy foi forçado pela dinâmica eleitoral a contestar o consenso monetarista europeu, enervando Berlim com sugestões de que o BCE deveria apoiar o crescimento económico.

Há lições portuguesas da política francesa, embora três circunstâncias hexagonais não tenham paralelo por cá (a reduzida expressão da esquerda anticapitalista incapaz de exercer o poder, o peso da extrema-direita da dinastia Le Pen e o eleitorado centrista de Bayrou, decisivo mas imprevisível).

Primeira lição: o quadro europeu não é imutável e uma viragem antineoliberal parece mais próxima, tornando absurda a pressa de Coelho e Seguro de aprovar a emenda constitucional alemã.

Segunda, a esquerda mais radical devia aprender com Mélenchon como é possível apresentar uma proposta credível e moderna a partir do legado republicano e socialista.

Terceira, a esquerda que cede sistematicamente ao BCE e a Berlim vai perder uma desculpa.

Written by Ricardo Alves

18 de Abril de 2012 at 23:41

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A política que o euro criou

A crise europeia é também uma crise do sistema político-partidário.
A UE apoiou-se num pacto entre os partidos do centro, excluindo radicais de esquerda e direita. O pacto dava mais poder ao BCE do que a políticos eleitos. Agora, quando o edifício europeu vacila e se pode desagregar, os partidos mais penalizados são os “do centro”, de que se esperava que contivessem a deriva monetarista e neoliberal: os socialistas. Estão afastados do governo em quase toda a UE e, amarrados às respectivas troikas em Portugal e na Grécia, assistem passivamente à destruição do Estado social construído desde 1945.
A crítica da Europa realmente existente, nas duas décadas pós-Maastricht, veio essencialmente da direita nacionalista no Norte da Europa, e a sul da esquerda anticapitalista (desacreditadas, respectivamente, pela sua xenofobia irracional ou pelo seu anacronismo bolchevique). Porém, o dilema presente não é entre resolver a crise na UE ou no isolamento nacional, mas sim saber se o poder reside na democracia e nos cidadãos ou no mercado e nos financeiros.
Em Abril, as eleições na Grécia e na França mostrarão que consequências políticas da crise retiram os eleitorados desses países. As sondagens indicam uma viragem à esquerda, mais forte na Grécia. É a oportunidade para uma esquerda contrária ao austeritarismo mas credivelmente democrática.

Written by Ricardo Alves

15 de Fevereiro de 2012 at 23:50

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Dez anos depois

É já no domingo: completa-se dez anos sobre a introdução do euro.

Lembram-se? Guterres era primeiro-ministro, Sampaio Presidente e Sócrates ministro. Foi depois da Expo mas antes do Euro (o outro, o do futebol). Terminara a década dos subsídios europeus, vivia-se a euforia do crédito bancário. A UE era liderada por Schröder, Chirac, Blair e Prodi, e prometia um futuro de liberdade e prosperidade. Parecia valer a pena estudar e até um Passos Coelho se licenciou.
Em 2001, poucos criticavam a ausência de governo democrático da UE, a preeminência do Banco Central Europeu entre as suas instituições e a obsessão com a estabilidade monetária. Eram considerados uns irrecuperáveis “eurocépticos” e marginalizados no debate. Os que queriam taxar as transacções financeiras eram anticapitalistas. O Banco de Portugal já estava “preocupado” com o BPN e Jardim fazia rir. As sementes do desastre estavam lá.
Na última noite de 2011 muitos se interrogarão sobre o que correu mal. Porque o euro, enquanto projecto de tornar a Europa uma potência económica, falhou. Não houve crescimento económico generalizado e a Europa empalideceu perante a China, a Índia e o Brasil. A democracia de base nacional, orgulho legítimo deste continente, sai enfraquecida de uma narrativa em que os grandes estados dominaram os pequenos, a Alemanha a todos, e em que no fim os financeiros saíram da sombra.

Written by Ricardo Alves

28 de Dezembro de 2011 at 0:15

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Merkozy e os seus criados

Há aqueles que encaram as circunstâncias como inevitáveis, e os que tentam mudá-las. Cada uma dessas posturas tem vantagens e o seu contrário, mas não se sai de uma crise esperando que passe ou (o que resulta igual) aceitando que outros decidam por nós.
Na ausência de democracia europeia e enquanto tarda a secessão do euro, há um breve instante para os líderes nacionais brilharem. Por exemplo, seria um revolucionário sinal de inconformismo que os Estados «periféricos» se coligassem, em vez de persistirem numa antidemocrática atitude de subserviência perante o eixo germano-francês. Caso não tenham reparado, «Merkozy» é também uma mera coligação de interesses entre Estados, tão europeísta como qualquer outra, mas mais democrática – na medida em que os respectivos eleitorados se podem sentir representados.
Infelizmente, há escravos que não desejam libertar-se. Sabe-se que Passos Coelho viveu toda a vida à sombra de algo ou de alguém: da jota, do partido, de um barão do partido, das empresas do barão do partido. A sua cultura política é a do aparelhismo, não a do desafio perante hierarquias que aceita como inamovíveis. Ninguém imagina, por detrás daquele sorriso postiço, coragem para oferecer o peito às balas.
Sim, a UE continuará às ordens da Alemanha. Pelo menos enquanto tantos mantiverem interiorizada uma mentalidade de criados.

Written by Ricardo Alves

1 de Dezembro de 2011 at 0:24

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Anders Breivik: um louco isolado?

Após o choque inicial e 15 minutos mediáticos, o ataque de Oslo e o massacre de Utoya foram quase esquecidos, debaixo da tranquilizadora noção de que Anders Breivik seria um louco isolado. Mas, por confortável que seja distanciarmo-nos de um terrorista remetendo-o ao foro psiquiátrico, a realidade é mais perturbadora. Dificilmente um genuíno doente mental teria conseguido planear durante anos, fria e habilmente, o terceiro pior ataque terrorista em solo europeu desde 1945 (apenas ultrapassado pelos atentados de Atocha em 2004 e Bolonha em 1980). Monstro será. Louco não.
E Breivik também não está isolado. As suas ideias entroncam na teoria do “choque de civilizações”, que dominaram o discurso jornalístico e académico desde outro inesperado atentado, dez anos antes, em Nova Iorque. Descontada a apologia da violência civil, o seu extremismo indigenista é comum a muitos movimentos xenófobos e personalidades políticas que detêm 10% a 25% dos votos, da Noruega à França dos Le Pen, passando pelo holandês Wilders.
Na violência confirmou-se esta semana que também não está sozinho, ao descobrir-se na Alemanha uma rede neo-nazi responsável por dez homicídios. Significativamente, os serviços secretos conheciam-nos mas não os incomodavam, obcecados que estavam com os estrangeiros islamitas.
Tome nota: em 2011 o terrorismo na Europa mudou.

Written by Ricardo Alves

16 de Novembro de 2011 at 0:27

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