Ricardo Alves

Arquivo de intervenções cívicas de Ricardo Alves.

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«Portugal, Estado laico?»

Debate «Portugal, Estado laico?» na Universidade Fernando Pessoa (Porto), no dia 15 de Dezembro de 2016.

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Written by Ricardo Alves

15 de Dezembro de 2016 at 20:33

Missas na escola pública

Debate no dia 18 de Março na RTP 3 com o padre Feytor Pinto, moderado por Sandra Felgueiras, sobre o papel da religião na escola pública.

Written by Ricardo Alves

18 de Março de 2016 at 0:21

Orwell em Cuba

Talvez por ter sido poupado a uma educação católica, espanta-me sempre o respeito e até veneração que rodeiam um homem que espalha pelo mundo (livre ou não) uma mensagem totalitária e menorizadora da mulher. Refiro-me a Ratzinger. Em Cuba, disse que “a obediência na fé é a verdadeira liberdade”. Imediatamente me recordei do “liberdade é servidão” no Mil Novecentos e Oitenta e Quatro de George Orwell. A semelhança é aumentada porque poucas palavras antes o papa católico elogiara a escravatura (divina) na pessoa da “Virgem”, a quem atribuiu o dito “eis aqui a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra”.

O duplipensar foi definido por Orwell como “o poder de manter na mente simultaneamente duas crenças contraditórias, aceitando ambas”. Ratzinger, nota-se, é um cultor do duplipensar: já em 2005 afirmara que “a fé vem da razão”, no fundo uma variante fina do slogan “ignorância é força”. Será lícito supor que alguém que a quase unanimidade dos mediocratas lusitanos jura ser um grandessíssimo intelectual desconheça Orwell? E que não saiba portanto que quase plagia os slogans do totalitarismo ficcionado (e satirizado) nesse célebre romance? O leitor que responda, que eu não consigo.

Os cubanos, submetidos a uma ditadura idêntica às que Orwell criticou, viram Ratzinger oferecer-lhes um sistema de pensamento tão parecido e tão totalitário. Pobres deles.


Publicado no i de 29 de Março de 2012.

Written by Ricardo Alves

29 de Março de 2012 at 22:00

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Um paradoxo agravado

 

Portugal mantém, desde o 25 de Abril, um paradoxo.

 

Segundo vários indicadores, os preceitos da religião tradicional são irrelevantes para a maioria da população. Nos casamentos, a cerimónia religiosa é escolha minoritária. Os jovens casais, frequentemente, nem se casam (duas em cinco crianças nascem de pais solteiros). O divórcio banalizou-se. A frequência da missa diminui. Nas escolas, os alunos fogem da Religião e Moral depois da puberdade.

E no entanto, talvez por não terem interiorizado que a sociedade se secularizou (e muito), os governos (de «direita» e de «esquerda») tratam a Igreja Católica como se representasse ainda uma fracção preponderante do país. Recentemente, assistiu-se ao ridículo de o governo da República «negociar» com essa igreja o fim de feriados civis (algo a que a Concordata nem obriga). Essa mesma igreja mantém os seus privilégios imunes à «austeridade», agravando o paradoxo da secularização sem laicização.

O fim da devolução do IVA, da isenção de pagamento de IMI (falamos do maior proprietário privado nacional) ou dos subsídios autárquicos à construção e manutenção de templos faria mais pela redução do défice que algumas medidas, socialmente gravosas, que estão a ser tomadas. Ao contrário de um mito urbano persistente, a «assistência social» atribuída à Igreja Católica não seria afectada: essas são outras contas.


Publicado no i de 14 de Março de 2012.

Written by Ricardo Alves

14 de Março de 2012 at 22:00

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Solstício


No dia em que esta coluna é publicada, o Sol atinge o ponto mais baixo de todo o ano, no horizonte de quem o vê do hemisfério norte. Este será o dia mais curto do ano, precedido ou seguido pela mais longa noite.

Em tempos menos civilizados, a escuridão das noites longas e frias causaria uma angústia compreensível, e entre gregos e romanos esta era a época de beber vinho e abater os animais que não teriam alimento nos meses seguintes. Na era do frigorífico e dos sulfitos, o desperdício mantém-se.

O cíclico “renascimento” do Sol originou, em vários povos e longitudes, festividades que assinalavam o início do alargamento dos dias. Um desses festivais, o Sol Invicto dos romanos, celebrava-se (aparentemente) a 25 de Dezembro. Foi apropriado pelos cristãos para data de nascimento da forma humana da sua divindade, numa manobra de marketing bem sucedida, por associar o ciclo da reprodução humana ao das estações.

O solstício de Inverno, evento astronómico e inalterável pela cultura humana, é um facto científico e portanto de todos. O “natal” é dos cristãos, que ligam estes ciclos a uma religião e a uma hierarquia autoritária que nesta semana conseguem sempre boa imprensa para valores específicos e discutíveis (como o perdão incondicional e total, ou a obediência). Muitos preferimos aceitar que ninguém nasce (nem morre) por nós. E que há muitas formas de festejar mais um ano.


Publicado no i de 22 de Dezembro de 2011.

Written by Ricardo Alves

22 de Dezembro de 2011 at 22:00

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Feriados para todos

 

O efeito económico de reduzir feriados é duvidoso, mas é o equivalente passista de uma causa fracturante.

É duvidoso porque, entre mais dias de trabalho de um lado e menos dias de repouso motivante e consumo extraordinário do outro, a relevância do impacto na produtividade é imprevisível.

É uma fonte de divisão porque evidencia as fracturas entre laicos e clérigos, democratas e salazaristas, republicanos e tradicionalistas, esquerda e direita.

Assumo que todas essas dicotomias me interessam. E, no fundamental, o regime ainda é uma república (5 de Outubro) e uma democracia (25 de Abril). Todavia, enquanto durar o troikismo, é absurdo assinalar a restauração da independência, e o fim desse resquício fascista que é o 10 de Junho seria um alívio, com o bónus de nos poupar aos discursos bacocos do António Barreto.

Quanto aos feriados religiosos, a minoria católica praticante deve festejá-los como entender – mas tenho a fundada suspeita de que a vasta maioria, que não sabe (nem quer saber) como se celebra o corpo de quem não tem corpo ou a “ressurreição” de um imortal, preferiria mais quatro ou cinco dias de férias à sua escolha. Assim todos teríamos feriados: os católicos nos dias que a sua igreja escolhesse e os outros nos dias que cada um escolhesse. Sem imposições, que a ICAR não se mete em política e não impõe feriados. Acho eu.


Publicado no i de 23 de Novembro de 2011.

Written by Ricardo Alves

23 de Novembro de 2011 at 22:00

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O 11 de Setembro já acabou?

Ossama Bin Laden pretendia levar o terror às sociedades mais livres e ricas do planeta. Conseguiu: Nova Iorque, Madrid e Londres foram atacadas em quatro anos. Ambicionava arrastar os EUA para invasões dispendiosas e arriscadas, que radicalizassem os muçulmanos ao evidenciar o imperialismo e a “hipocrisia” das democracias laicas. Conseguiu o atoleiro iraquiano. Sonhava ainda com revoltas islamitas no mundo árabe e suas vizinhanças: descontada a subida ao poder do Hamas em Gaza (e pouco mais), falhou estrondosamente.
No ano da morte de Bin Laden, os povos árabes revoltaram-se, finalmente, contra os seus déspotas: na Tunísia, no Egipto, no Iémen, no Bahrein, na Líbia e na Síria. Mas, no dia em que escrevo, as revoltas que triunfaram parecem-se mais com processos de democratização que de islamização.
É verdade que se mantém quase intacta a ecologia que gerou a Al-Qaeda (dinheiro saudita, caos afegão, campos de treino paquistaneses, pobreza e desespero), e que a década de terror e “guerra contra o terror” nos legou, na Europa e nos EUA, serviços secretos gordos e uma rede de prisões ilegais que ficará para os vindouros como símbolo da barbárie na geração actual. Porém, talvez todos tenhamos entendido que a democracia e a prosperidade não saem nem de um qualquer livro sagrado, nem de guerras “preventivas”. Se assim for, a era do 11 de Setembro acabou.

Written by Ricardo Alves

7 de Setembro de 2011 at 0:40

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