Ricardo Alves

Arquivo de intervenções cívicas de Ricardo Alves.

Archive for Fevereiro 2012

Geração SEF

O João fez licenciatura, mestrado e doutoramento. Teve uns anos de bolsas, deu aulas e explicações, “colaborou” numa multinacional de manhã a manhã, foi despedido na hora e hoje não sabe o que se segue.
A Ana saiu da universidade para uns trabalhos precários que acumulou com os filhos, trabalhou em casa, em seis empresas diferentes e para 11 entidades. Onde está, sabe que não vai durar.
O Miguel é de Engenharia. O primeiro salário não o satisfez e inscreveu-se num mestrado que ficou a meio porque surgiu outra oportunidade. Ainda fundou uma empresa (que “não deu”), mas dez anos e cinco empregadores depois emigrou para o Brasil. Agora vai para Angola.
O João, a Ana e o Miguel conheceram o trabalho por conta própria e de outrem, os recibos verdes e o emprego a seis meses ou a um ano, o subemprego e o desemprego. Viram as empresas de trabalho temporário e a “flexibilidade”. Arriscaram, ganharam e perderam. Pertencem às gerações SEF (sem emprego fixo). O Paulo também, mas entrou na Jota aos 18. Organizou reuniões e comícios, angariou redes de apoiantes e contactos, e antes dos 30 conheceu um ministro a quem foi simpático. Passou então de dirigente da concelhia a dirigente de distrital, de deputado municipal a nacional. Aos 35 achou por bem licenciar-se e escolheu algo fácil. Jogou pelo seguro, mas é o único protagonista desta coluna que tem uma carreira.
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Written by Ricardo Alves

29 de Fevereiro de 2012 at 23:48

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A política que o euro criou

A crise europeia é também uma crise do sistema político-partidário.
A UE apoiou-se num pacto entre os partidos do centro, excluindo radicais de esquerda e direita. O pacto dava mais poder ao BCE do que a políticos eleitos. Agora, quando o edifício europeu vacila e se pode desagregar, os partidos mais penalizados são os “do centro”, de que se esperava que contivessem a deriva monetarista e neoliberal: os socialistas. Estão afastados do governo em quase toda a UE e, amarrados às respectivas troikas em Portugal e na Grécia, assistem passivamente à destruição do Estado social construído desde 1945.
A crítica da Europa realmente existente, nas duas décadas pós-Maastricht, veio essencialmente da direita nacionalista no Norte da Europa, e a sul da esquerda anticapitalista (desacreditadas, respectivamente, pela sua xenofobia irracional ou pelo seu anacronismo bolchevique). Porém, o dilema presente não é entre resolver a crise na UE ou no isolamento nacional, mas sim saber se o poder reside na democracia e nos cidadãos ou no mercado e nos financeiros.
Em Abril, as eleições na Grécia e na França mostrarão que consequências políticas da crise retiram os eleitorados desses países. As sondagens indicam uma viragem à esquerda, mais forte na Grécia. É a oportunidade para uma esquerda contrária ao austeritarismo mas credivelmente democrática.

Written by Ricardo Alves

15 de Fevereiro de 2012 at 23:50

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Um homem invulgarmente oco

Passos Coelho chegou ao governo graças à intervenção da santíssima troika. Terá, como qualquer adulto, ideias próprias. Mas jura-nos que a sua única política é a da troika, da “austeridade” e do “empobrecimento”, “custe o que custar”, porque é “inevitável”, e quem protestar é “piegas”.

Não sabemos, porque nunca se dignou explicar-nos, se noutras condições teria outra política ou se fará algo diferente quando terminar a “emergência”.
Quando se procura alguma racionalidade nos seus discursos, encontra-se a vaga ideia de que das cinzas da destruição do Estado social nascerá um Estado novo, magro e “honrado”, que voará pelos ares com a leveza de nada dever aos credores e (suspeito que o mais importante), com a segurança de ter muito menos obrigações sociais perante os cidadãos. Ele quer convencer-nos que esse Estado “mínimo” (mas com os monopólios naturais e os bancos vendidos a ditaduras estrangeiras) libertaria subitamente uma legião de empreendedores, “desencostados” do Estado e prontos a criar emprego e riqueza. Infelizmente, Passos é dos piores personagens que se poderia escolher para protagonista dessa epopeia da “exigência” e da “autonomia da sociedade civil”, contra a “preguiça” e a “complacência”.
Não tem “credibilidade”. Pela simples razão de que o seu percurso pessoal é o de alguém que sempre viveu encostado ao partido e com os olhos no Estado.

Written by Ricardo Alves

8 de Fevereiro de 2012 at 23:51

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Republicanos só de lapela

 

Passos e outros ministros ostentam na lapela um pino com a bandeira da República. Suponho que sabem que aquela bandeira foi adoptada após o 5 de Outubro de 1910, data que, decidiram, deixará de ser feriado nacional. Talvez ignorem que foi pela primeira vez desfraldada no 1 de Dezembro de 1910, feriado também suprimido.

Ao que se diz, as cores da bandeira que lhes orna a lapela foram impostas pela Carbonária ao Conselho de Ministros, que preferiria um conciliador azul e branco. Venceram as cores dos heróis da Rotunda, assumidas como o vermelho revolucionário e o verde positivista, porque o 5 de Outubro (como a azia centenária de certos ministros monárquicos bem sabe) foi uma revolução do povo em armas.

Fica agora legitimada a alteração de feriados, sem maior consenso, em sentido contrário. Qualquer futuro governo poderá repor o 5 de Outubro e suprimir, por exemplo, o 10 de Junho, o símbolo que resta da perversão nacionalista da República feita pelo salazarismo. Será talvez por esse nacionalismo pretérito que eles usam o pino. Certamente não o associam aos ideais de laicismo, independência nacional e emancipação pela instrução dos republicanos de há cem anos, contraditórios com a subserviência governamental à Igreja Católica e o apelo a que os mais qualificados emigrem. Seria portanto mais genuíno e coerente que tirassem o pino republicano da lapela.


Publicado no i de 1 de Fevereiro de 2012.

Written by Ricardo Alves

1 de Fevereiro de 2012 at 22:00

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