Ricardo Alves

Arquivo de intervenções cívicas de Ricardo Alves.

Archive for Janeiro 2012

Autismo

Na maior crise financeira das últimas décadas, e ainda antes do máximo impacto social das medidas troiquistas, o protesto está nas ruas mas quase ausente das instituições.
Grande parte da responsabilidade pelo autismo institucional cabe ao PS. Liderado por um Seguro que não cortou com o passado socrático, a abstenção no Orçamento e a solidão dos deputados que o pretendem fiscalizar no Tribunal Constitucional mostram um alheamento inquietante.
Quanto ao Presidente, contribuiu esta semana para cavar o fosso entre os cidadãos e a República com declarações do mais completo autismo social. Todos sabemos que Cavaco Silva ganha dez vezes mais que a média nacional. As suas poupanças, ontem publicadas, devem ultrapassar as de muitos jogadores de futebol de topo. Escusadas eram portanto palavras que o aparentam a um rei indiferente ao sofrimento e às privações do comum dos portugueses.
Acrescente-se porém que Cavaco chegou onde se encontra furtando-se a explicações quando qualquer outro se teria sentido forçado a dá-las. Entre os episódios mais recentes nunca cabalmente explicados há uma célebre excursão do seu assessor de sempre à Avenida de Roma e o papel dos seus amigos num banco falido. Por alguma razão o bolo-rei será o seu símbolo.
Quando nada se espera do Presidente ou do maior partido da oposição, resta aos cidadãos procurar outras formas de fazer ouvir a sua voz.
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Written by Ricardo Alves

25 de Janeiro de 2012 at 0:07

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A República e o secretismo

Liberdade inclui privacidade: o direito ao recato das nossas convicções, opiniões, paixões e desânimos, amizades e relações. Só somos realmente livres quando, podendo fazê-lo se quisermos, não somos forçados a dizer o que pensamos, o que somos, quem conhecemos e o que fazemos. Infelizmente, muitos parecem não entender assim: assiste-se a uma estranha caça às bruxas que já chegou à sugestão de que deveriam revelar a sua filiação maçónica os magistrados, e depois os políticos, e até os jornalistas. Ou mesmo todos.

Acontece que existem sempre segredos: dos indivíduos, das famílias, de associações mais ou menos formais e dos partidos políticos. E uma democracia decente não espreita pela fechadura da porta, não faz listas de quem frequenta o quê ou de quem pensa deste ou daquele modo. Essas são práticas mais próprias das ditaduras e das suas polícias secretas cuja sobrevivência em democracia é absurda. Porque uma sociedade civil forte tem necessariamente os seus fóruns de debate ou de aprendizagem, os seus clubes e sociedades (das quais as iniciáticas têm, redundância, segredos), mas não necessita que departamentos estatais, pagos pelos cidadãos e supostamente ao seu serviço, violem a sua privacidade ou lancem manobras mediáticas de contra-informação.
São serviços do Estado secretos e não fiscalizados que constituem um perigo para a liberdade.

Written by Ricardo Alves

11 de Janeiro de 2012 at 0:10

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Novos bárbaros

Os cidadãos esperam da República que lhes garanta o ensino, a saúde, o acesso à cultura e o apoio na pobreza ou na velhice. Tudo dispendioso, mas não luxuoso: são esses serviços públicos que nos separam da barbárie social.
Não precisam os cidadãos que o Estado registe as suas conversas telefónicas, as escute, os vigie na rua, os fiche ou os torture. Todavia, existem serviços do governo, o SIS e o SIED, dedicados a essas práticas bárbaras e inquisitoriais. Seria uma piada de mau gosto qualificá-los de «serviços públicos».
A semana passada, um candidato ao respectivo Conselho de Fiscalização declarou aos deputados, caso único, «aceitar» a violação da Constituição (concretamente do artigo que garante o sigilo da correspondência). Os deputados, que estranhamente se esqueceram de lhe perguntar se aceitaria que o escutassem a ele, à família e aos amigos (ou aos próprios deputados), elegeram-no. Por maioria de dois terços, mas com a curiosa oposição de muitos deputados da maioria PSD-PS-CDS.
Ao cortar há dias alguma gordura desses serviços, Passos Coelho, ao que consta, puniu exactamente aqueles que divulgaram as infracções cometidas pelos colegas. É também caso único: um departamento do Estado em que denunciar crimes origina despromoção ou despedimento.
Sendo clara a deriva totalitária destes serviços e a sua impunidade, o melhor mesmo seria extingui-los.

Written by Ricardo Alves

4 de Janeiro de 2012 at 0:12

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