Ricardo Alves

Arquivo de intervenções cívicas de Ricardo Alves.

Archive for Dezembro 2011

Dez anos depois

É já no domingo: completa-se dez anos sobre a introdução do euro.

Lembram-se? Guterres era primeiro-ministro, Sampaio Presidente e Sócrates ministro. Foi depois da Expo mas antes do Euro (o outro, o do futebol). Terminara a década dos subsídios europeus, vivia-se a euforia do crédito bancário. A UE era liderada por Schröder, Chirac, Blair e Prodi, e prometia um futuro de liberdade e prosperidade. Parecia valer a pena estudar e até um Passos Coelho se licenciou.
Em 2001, poucos criticavam a ausência de governo democrático da UE, a preeminência do Banco Central Europeu entre as suas instituições e a obsessão com a estabilidade monetária. Eram considerados uns irrecuperáveis “eurocépticos” e marginalizados no debate. Os que queriam taxar as transacções financeiras eram anticapitalistas. O Banco de Portugal já estava “preocupado” com o BPN e Jardim fazia rir. As sementes do desastre estavam lá.
Na última noite de 2011 muitos se interrogarão sobre o que correu mal. Porque o euro, enquanto projecto de tornar a Europa uma potência económica, falhou. Não houve crescimento económico generalizado e a Europa empalideceu perante a China, a Índia e o Brasil. A democracia de base nacional, orgulho legítimo deste continente, sai enfraquecida de uma narrativa em que os grandes estados dominaram os pequenos, a Alemanha a todos, e em que no fim os financeiros saíram da sombra.

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Written by Ricardo Alves

28 de Dezembro de 2011 at 0:15

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Solstício


No dia em que esta coluna é publicada, o Sol atinge o ponto mais baixo de todo o ano, no horizonte de quem o vê do hemisfério norte. Este será o dia mais curto do ano, precedido ou seguido pela mais longa noite.

Em tempos menos civilizados, a escuridão das noites longas e frias causaria uma angústia compreensível, e entre gregos e romanos esta era a época de beber vinho e abater os animais que não teriam alimento nos meses seguintes. Na era do frigorífico e dos sulfitos, o desperdício mantém-se.

O cíclico “renascimento” do Sol originou, em vários povos e longitudes, festividades que assinalavam o início do alargamento dos dias. Um desses festivais, o Sol Invicto dos romanos, celebrava-se (aparentemente) a 25 de Dezembro. Foi apropriado pelos cristãos para data de nascimento da forma humana da sua divindade, numa manobra de marketing bem sucedida, por associar o ciclo da reprodução humana ao das estações.

O solstício de Inverno, evento astronómico e inalterável pela cultura humana, é um facto científico e portanto de todos. O “natal” é dos cristãos, que ligam estes ciclos a uma religião e a uma hierarquia autoritária que nesta semana conseguem sempre boa imprensa para valores específicos e discutíveis (como o perdão incondicional e total, ou a obediência). Muitos preferimos aceitar que ninguém nasce (nem morre) por nós. E que há muitas formas de festejar mais um ano.


Publicado no i de 22 de Dezembro de 2011.

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22 de Dezembro de 2011 at 22:00

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E depois do empobrecimento?

Numa das célebres “Farpas”, Eça de Queirós imaginou um partido político que respondia a todas as questões com o pregão “Economias!”. Cento e quarenta anos depois, esse partido chama-se PSD/CDS. Excedendo a caricatura queirosiana, propõe, após décadas de promessas de prosperidade e enriquecimento e num malabarístico ovo de Colombo, a meta do empobrecimento nacional.
Na educação, na saúde, nos transportes, na comunicação social, na cultura ou na diplomacia, tudo – à excepção do reforço da vigilância e da repressão policial – é decidido invocando a palavra de ordem do empobrecimento. O que é muito pobre.
É pobre porque não chega como fundamento político. Se o governo quer dinheiro, podia taxar os bancos e não os reformados, vender submarinos e não monopólios naturais, rever os contratos com as parcerias público-privadas e não subir as taxas moderadoras, reduzir o pessoal da autonomia madeirense e não o dos municípios, terminar as aulas de Religião e Moral e não as de Formação Cívica. As opções feitas não decorrem da austeridade: são escolhas ideológicas.
A política do empobrecimento é também pobre porque omissa quanto ao pós-empobrecimento. O governo tem uma estratégia para o crescimento da economia? Em que sectores? A educação e a ciência serão prioridades? Nada sabemos. Depois do empobrecimento, Passos e Gaspar ficarão sem política.

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14 de Dezembro de 2011 at 0:17

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Liberais?

À data da posse do governo, as gavetas do MAI abrigavam dois projectos atentatórios da privacidade dos cidadãos: o acordo de transferência de dados pessoais e a videovigilância. Menos de seis meses depois, temos mais Estado e menos liberdade.
Aprovado o acordo, é agora possível fornecer aos EUA os dados do meu BI (e do seu) por mera suspeita de que estejamos prestes a cometer uma infracção penal. Num país em que se tolera, bovinamente, que o governo registe as nossas impressões digitais, poucos protestamos.
Quanto à videovigilância, o MAI aprovará na AR a instalação de câmaras nas ruas, jardins e praias, por decisão policial e sem veto da Comissão de Protecção de Dados.
Finalmente, e juntando à má legislação a má prática, é público há meses que o SIS e o SIED vigiam e ficham cidadãos inocentes; há indícios de que a polícia (ou o SIS) infiltrou provocadores nas recentes manifestações com o objectivo aparente de instigar os «tumultos» dos sonhos de Passos Coelho; Miguel Macedo negou que houvesse «infiltrados» para depois a PSP o desmentir, admitindo que há fotografias de agentes à civil «na primeira linha» dos confrontos; e a PSP afirmou que o indivíduo detido com enorme violência era procurado pela Interpol por três crimes para depois a Procuradoria negar que tenha cadastro.
Prova-se que este governo só é liberal na economia. Nas liberdades individuais, é anti-liberal.

Written by Ricardo Alves

7 de Dezembro de 2011 at 0:24

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Merkozy e os seus criados

Há aqueles que encaram as circunstâncias como inevitáveis, e os que tentam mudá-las. Cada uma dessas posturas tem vantagens e o seu contrário, mas não se sai de uma crise esperando que passe ou (o que resulta igual) aceitando que outros decidam por nós.
Na ausência de democracia europeia e enquanto tarda a secessão do euro, há um breve instante para os líderes nacionais brilharem. Por exemplo, seria um revolucionário sinal de inconformismo que os Estados «periféricos» se coligassem, em vez de persistirem numa antidemocrática atitude de subserviência perante o eixo germano-francês. Caso não tenham reparado, «Merkozy» é também uma mera coligação de interesses entre Estados, tão europeísta como qualquer outra, mas mais democrática – na medida em que os respectivos eleitorados se podem sentir representados.
Infelizmente, há escravos que não desejam libertar-se. Sabe-se que Passos Coelho viveu toda a vida à sombra de algo ou de alguém: da jota, do partido, de um barão do partido, das empresas do barão do partido. A sua cultura política é a do aparelhismo, não a do desafio perante hierarquias que aceita como inamovíveis. Ninguém imagina, por detrás daquele sorriso postiço, coragem para oferecer o peito às balas.
Sim, a UE continuará às ordens da Alemanha. Pelo menos enquanto tantos mantiverem interiorizada uma mentalidade de criados.

Written by Ricardo Alves

1 de Dezembro de 2011 at 0:24

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