Ricardo Alves

Arquivo de intervenções cívicas de Ricardo Alves.

Archive for Novembro 2011

Feriados para todos

 

O efeito económico de reduzir feriados é duvidoso, mas é o equivalente passista de uma causa fracturante.

É duvidoso porque, entre mais dias de trabalho de um lado e menos dias de repouso motivante e consumo extraordinário do outro, a relevância do impacto na produtividade é imprevisível.

É uma fonte de divisão porque evidencia as fracturas entre laicos e clérigos, democratas e salazaristas, republicanos e tradicionalistas, esquerda e direita.

Assumo que todas essas dicotomias me interessam. E, no fundamental, o regime ainda é uma república (5 de Outubro) e uma democracia (25 de Abril). Todavia, enquanto durar o troikismo, é absurdo assinalar a restauração da independência, e o fim desse resquício fascista que é o 10 de Junho seria um alívio, com o bónus de nos poupar aos discursos bacocos do António Barreto.

Quanto aos feriados religiosos, a minoria católica praticante deve festejá-los como entender – mas tenho a fundada suspeita de que a vasta maioria, que não sabe (nem quer saber) como se celebra o corpo de quem não tem corpo ou a “ressurreição” de um imortal, preferiria mais quatro ou cinco dias de férias à sua escolha. Assim todos teríamos feriados: os católicos nos dias que a sua igreja escolhesse e os outros nos dias que cada um escolhesse. Sem imposições, que a ICAR não se mete em política e não impõe feriados. Acho eu.


Publicado no i de 23 de Novembro de 2011.

Written by Ricardo Alves

23 de Novembro de 2011 at 22:00

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Anders Breivik: um louco isolado?

Após o choque inicial e 15 minutos mediáticos, o ataque de Oslo e o massacre de Utoya foram quase esquecidos, debaixo da tranquilizadora noção de que Anders Breivik seria um louco isolado. Mas, por confortável que seja distanciarmo-nos de um terrorista remetendo-o ao foro psiquiátrico, a realidade é mais perturbadora. Dificilmente um genuíno doente mental teria conseguido planear durante anos, fria e habilmente, o terceiro pior ataque terrorista em solo europeu desde 1945 (apenas ultrapassado pelos atentados de Atocha em 2004 e Bolonha em 1980). Monstro será. Louco não.
E Breivik também não está isolado. As suas ideias entroncam na teoria do “choque de civilizações”, que dominaram o discurso jornalístico e académico desde outro inesperado atentado, dez anos antes, em Nova Iorque. Descontada a apologia da violência civil, o seu extremismo indigenista é comum a muitos movimentos xenófobos e personalidades políticas que detêm 10% a 25% dos votos, da Noruega à França dos Le Pen, passando pelo holandês Wilders.
Na violência confirmou-se esta semana que também não está sozinho, ao descobrir-se na Alemanha uma rede neo-nazi responsável por dez homicídios. Significativamente, os serviços secretos conheciam-nos mas não os incomodavam, obcecados que estavam com os estrangeiros islamitas.
Tome nota: em 2011 o terrorismo na Europa mudou.

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16 de Novembro de 2011 at 0:27

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Uma moeda desgovernada

Os estados do euro são países de soberania limitada. Devem controlar o défice mas não podem controlar a moeda. Elegem deputados mas, ao invés dos parlamentos das democracias, a assembleia que constituem não propõe legislação nem derruba o “governo” comum, essa Comissão Europeia burocrática e irrelevante, só em parte porque presidida por um oportunista fugido de um pequeno país periférico. As decisões políticas realmente importantes para a UE foram e são tomadas pelos chefes de governo, entre os quais o poder de facto, durante a euforia dos tratados, se resumia ao célebre “Directório” dos maiores estados. Reduz-se agora a Merkel com um pouco de Sarkozy.
À hora a que escrevo não é claro se Berlusconi será o quinto líder governamental derrubado pelos mercados, depois de Karamanlis, Brian Cowen, Sócrates e Papandreou. Outros cairão: como mostra a Grécia, a mesma receita produz os mesmos resultados, e a destruição do Estado social pode salvar os bancos mas não salvará o euro.
Merkel tem maioria para dois anos. A próxima (talvez a última) oportunidade de mudar o rumo da UE será a eleição presidencial francesa, em Maio, se vencer um projecto de emissão de dívida pelo BCE, impostos europeus e taxação das transacções financeiras e dos paraísos fiscais. A mudança, já se viu, não virá nem das instituições comuns nem de pequenos estados subalternizados. Infelizmente.

Written by Ricardo Alves

9 de Novembro de 2011 at 0:29

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O regresso da democracia?

Todos os estados da UE são democracias, mas a UE não é uma democracia. Este axioma serviu na era do mercado único, mas tornou-se insustentável em dez anos de moeda única.
Anteontem, Georges Papandreou blasfemou, ao anunciar que será o próprio povo grego a decidir, em referendo, sobre o enésimo pacote de austeridade que esse mesmo povo sofrerá, embora decidido pelo BCE e por políticos eleitos por outros povos.
As reacções foram violentas: quer do lado de mercados, bancos, bolsas e agências de rating, quer do lado de líderes, mais preocupados com essas entidades que com os cidadãos a quem, teoricamente, devem a sua legitimidade decisória. Mas se os mercados se enervam com a instabilidade política das democracias nacionais, as pessoas estão ainda mais fartas da instabilidade que a UE realmente existente trouxe às suas vidas.
A menos que a oposição o trave, ou que Papandreou seja um tacticista que quer subir a parada, o seu gesto poderá assinalar o regresso da democracia a uma Europa construída por primeiros-ministros reunidos à porta fechada e obcecados com a estabilidade monetária e não com o empregos.
Não havendo condições para avançar para a democracia de âmbito europeu, recuar para democracias nacionais é o mal menor. Caso contrário, a fractura entre os decisores europeus e os povos do continente assemelha-se cada vez mais a uma ditadura de novo tipo.

Written by Ricardo Alves

2 de Novembro de 2011 at 0:30

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