Ricardo Alves

Arquivo de intervenções cívicas de Ricardo Alves.

Lições líbias

A 1 de Setembro de 2010, José Sócrates sentou-se ao lado de Muamar Kadhafi na tribuna de honra. Celebrava-se o 41º aniversário da ditadura líbia. Os negócios (petróleo para nós e construção civil para eles) corriam bem. Kadhafi tornara-se respeitável, todos os líderes europeus o abraçavam e a CIA confiava-lhe jihadistas para torturar.
A semana passada, pouco mais de um ano após esse aniversário, os media exibiram indecorosamente imagens do mesmo Kadhafi linchado por uma multidão em fúria.
Há lições a aprender.
A diplomacia portuguesa, então liderada por Luís Amado, reagiu incomodada ao início da revolta que, sentiu-se, atrapalharia negócios. Acontece que os povos não se guiam apenas por interesses comerciais. E uma política externa que faça destes o único valor é, portanto, curta de vistas.
Teme-se agora que Paulo Portas nada tenha aprendido com os erros do antecessor. Na sua muito mediatizada visita à Líbia pareceu apenas preocupado com as relações comerciais. Permanece em silêncio face à recusa do CNT de investigar a morte de Kadhafi e dezenas de execuções sumárias de kadhafistas, e depois do anúncio de que o novo regime se baseará na sharia. O MNE francês, menos obcecado com os interesses económicos, frisou que os valores da alternância democrática e da igualdade de direitos entre homens e mulheres foram relevantes no apoio europeu à revolta. Faz diferença.
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Written by Ricardo Alves

26 de Outubro de 2011 às 0:36

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