Ricardo Alves

Arquivo de intervenções cívicas de Ricardo Alves.

Archive for Outubro 2011

Lições líbias

A 1 de Setembro de 2010, José Sócrates sentou-se ao lado de Muamar Kadhafi na tribuna de honra. Celebrava-se o 41º aniversário da ditadura líbia. Os negócios (petróleo para nós e construção civil para eles) corriam bem. Kadhafi tornara-se respeitável, todos os líderes europeus o abraçavam e a CIA confiava-lhe jihadistas para torturar.
A semana passada, pouco mais de um ano após esse aniversário, os media exibiram indecorosamente imagens do mesmo Kadhafi linchado por uma multidão em fúria.
Há lições a aprender.
A diplomacia portuguesa, então liderada por Luís Amado, reagiu incomodada ao início da revolta que, sentiu-se, atrapalharia negócios. Acontece que os povos não se guiam apenas por interesses comerciais. E uma política externa que faça destes o único valor é, portanto, curta de vistas.
Teme-se agora que Paulo Portas nada tenha aprendido com os erros do antecessor. Na sua muito mediatizada visita à Líbia pareceu apenas preocupado com as relações comerciais. Permanece em silêncio face à recusa do CNT de investigar a morte de Kadhafi e dezenas de execuções sumárias de kadhafistas, e depois do anúncio de que o novo regime se baseará na sharia. O MNE francês, menos obcecado com os interesses económicos, frisou que os valores da alternância democrática e da igualdade de direitos entre homens e mulheres foram relevantes no apoio europeu à revolta. Faz diferença.
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Written by Ricardo Alves

26 de Outubro de 2011 at 0:36

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Os gordos e os magros

Afinal os gordos eram os pensionistas. Aqueles velhotes sentados no jardim, a fazerem tempo para ir aos netos, são eles as tais “gorduras do Estado” que, na frase-bandeira de Passos Coelho, urge “cortar”. Pagarão mais em medicamentos com uma reforma menor.
E gordos são também os funcionários públicos, por manterem uma invejável estabilidade laboral e salarial e porque seria fútil taxar mais o sector privado, onde não faltam formas de reduzir salários, subempregar, reempregar por menos ou despedir.
Obesas são ainda as escolas e anafados são os cientistas, bolinhas colesteróticas que os iludidos acham indispensáveis ao progresso de longo prazo. Boa sorte a quem emigrar.
Os magros, esses, devem ser os banqueiros e a finança, apenas beliscados neste Orçamento e que todos os anos vêem os lucros subir. Esbelto é Jardim, que talvez (nem isso é certo) leve uma palmadita nos dedos com a suspensão de transferências até nos distrairmos dele.
Magríssima, quase esquelética, será a Igreja Católica, maior proprietária imobiliária de Portugal e que continua isenta de IMI e IMT, recebe de volta o IVA e ainda subsídios autárquicos para construir templos essenciais a uma sociedade moderna e tecnológica. Tísicas são as polícias e os serviços secretos, para mais em ano de “tumultos” (outra frase emblemática), isoladas no aumento de despesa.
Dieta sim, mas só para alguns.

Written by Ricardo Alves

19 de Outubro de 2011 at 0:31

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Educação e ciência

Nas crises é ainda mais importante separar o essencial do acessório.
A história da humanidade é a história do progresso científico e tecnológico. E pode traçar-se a prosperidade presente das sociedades até ao momento passado do início de um esforço deliberado, e continuado, para alfabetizar e difundir o conhecimento. (Desconto aqui efeitos do acesso a recursos naturais, depredações guerreiras, totalitarismos incapacitantes e pouco mais.)

Em 1910, Portugal tinha 75% de analfabetos. Escandinavos, anglo-saxões, franceses e alemães tinham 10% ou menos.

A aposta dos republicanos na instrução e na ciência (que ainda hoje origina acusações de “positivismo” e “cientismo”) foi depois invertida por um Estado Novo que atrasou a massificação do ensino e perseguiu cientistas. Chegámos a 1974 com 30% de analfabetos, ultrapassados por russos e balcânicos, que no início do século tinham partilhado o nosso atraso.

É um chavão antigo que os políticos pensam nas próximas eleições, e os estadistas na próxima geração.

O governo anterior deixou-nos a programação de 12 anos de escolaridade obrigatória, o Magalhães e o aumento do investimento em ciência. Se continuados, são avanços que serão recordados por décadas. Já a política do governo actual nesta área, para além da gestão de assuntos correntes e de cortes cegos na despesa (até em prémios de mérito…), permanece um mistério.


Publicado no i de 12 de Outubro de 2011.

Written by Ricardo Alves

12 de Outubro de 2011 at 22:00

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Lições da outra República

 

Em anos prévios ao 5 de Outubro de 1910, Portugal dependeu do crédito estrangeiro e teve orçamentos deficitários. A política era esterilmente rotativista e a chefia do Estado reservada a uma família. A Igreja Católica mantinha o monopólio das consciências, as mulheres eram menorizadas e só um quarto dos portugueses sabia ler e escrever.

Nos anos da República, o número de escolas primárias subiu 24% e os estudantes universitários, com a criação das primeiras universidades fora de Coimbra, mais que triplicaram. Afonso Costa conteve as despesas dos ministérios pela lei-travão, obtendo orçamentos superavitários. As mulheres ganharam igualdade no casamento e independência cívica (mas não o voto), o Estado separou-se da Igreja e a blasfémia deixou de ser crime.

Convém recordar, em 2011, alguns dos factores e protagonistas que contribuíram para a interrupção da República: a finança e as oligarquias económicas que nunca visam a democracia nem a prosperidade geral, mas o lucro particular; agitadores dos extremos prontos a baterem-se nas ruas; uma guerra necessária perante os pares europeus, mas impopular; a religião que medra na miséria e no obscurantismo sem os resolver; uma base popular que viu as suas expectativas insatisfeitas.

Urge controlar a finança e reduzir gastos (mas não no ensino), limitar mandatos e aplicar incompatibilidades. Entre outras lições.


Publicado no i de 5 de Outubro de 2011.

 

Written by Ricardo Alves

5 de Outubro de 2011 at 22:00

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