Ricardo Alves

Arquivo de intervenções cívicas de Ricardo Alves.

Archive for Setembro 2011

Europa kaputt

A bandeira da UE, essa sim, deveria ser posta a meia haste. O velho europeísmo morreu, vítima da crise actual: já não há os “doze” ou os “quinze”, como durante a euforia dos alargamentos, mas sim estados devedores e estados credores. E os “cidadãos europeus”, admite-se agora, nunca existiram: existem contribuintes alemães, finlandeses “verdadeiros”, desempregados espanhóis, revoltados gregos e “irresponsáveis” ingleses.
Olha-se em volta e, tal como Raul Proença há 86 anos, não se vê ninguém. A senhora Merkel, líder da Europa por inerência da chancelaria, pensa nos seus eleitores; Barroso e a Comissão gerem assuntos correntes com frieza de burocratas; o Parlamento Europeu pronuncia-se mas não decide, porque a democracia só é boa no âmbito estatal; e Trichet preocupa-se com os bancos mas não com as pessoas.
Não faltam sequer incendiários, saudosos de totalitarismos defuntos, que pedem sangue, tumultos, montras ou caras partidas e interrupções da democracia. Na passagem dos anos 20 para os 30 conseguiram esvaziar o centro para os dois extremos, mas hoje poucos europeus repetiriam o erro.
As alternativas são ou recuar (sair do euro e voltar às soberanias nacionais, limitadas pelas dívidas) ou seguir em frente (taxar a especulação financeira, criar impostos europeus e democracia europeia). A segunda é impensável com os actuais protagonistas políticos.

Written by Ricardo Alves

14 de Setembro de 2011 at 0:39

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O 11 de Setembro já acabou?

Ossama Bin Laden pretendia levar o terror às sociedades mais livres e ricas do planeta. Conseguiu: Nova Iorque, Madrid e Londres foram atacadas em quatro anos. Ambicionava arrastar os EUA para invasões dispendiosas e arriscadas, que radicalizassem os muçulmanos ao evidenciar o imperialismo e a “hipocrisia” das democracias laicas. Conseguiu o atoleiro iraquiano. Sonhava ainda com revoltas islamitas no mundo árabe e suas vizinhanças: descontada a subida ao poder do Hamas em Gaza (e pouco mais), falhou estrondosamente.
No ano da morte de Bin Laden, os povos árabes revoltaram-se, finalmente, contra os seus déspotas: na Tunísia, no Egipto, no Iémen, no Bahrein, na Líbia e na Síria. Mas, no dia em que escrevo, as revoltas que triunfaram parecem-se mais com processos de democratização que de islamização.
É verdade que se mantém quase intacta a ecologia que gerou a Al-Qaeda (dinheiro saudita, caos afegão, campos de treino paquistaneses, pobreza e desespero), e que a década de terror e “guerra contra o terror” nos legou, na Europa e nos EUA, serviços secretos gordos e uma rede de prisões ilegais que ficará para os vindouros como símbolo da barbárie na geração actual. Porém, talvez todos tenhamos entendido que a democracia e a prosperidade não saem nem de um qualquer livro sagrado, nem de guerras “preventivas”. Se assim for, a era do 11 de Setembro acabou.

Written by Ricardo Alves

7 de Setembro de 2011 at 0:40

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